A DEMONIZAÇÃO QUE O CANDOMBLÉ RECEBE


É engraçado como a nossa sociedade lida com toda a cultura negra sendo cultuada pelo próprio povo. E quando digo que é engraçado, é levando as coisas no deboche mesmo. E é engraçado, também, como o candomblé é interpretado pela sociedade - e fica evidente o estrago que a colonização fez na cultura afro-brasileira e passou uma visão totalmente distorcida do que ela realmente é, do que prega. A colonização alavancou o preconceito dentro da nossa sociedade à um nível extremamente grotesco e até os dias de hoje, os estereótipos sobre a religião continua nos colocando como inferiores à vista da sociedade preconceituosa. E nós sabemos que não se trata somente de 'intolerância religiosa', pois tudo abominado no país é de origem negra, é preto, é um raiz estrutural que nos oprime de todos os lados. Em todas as nossas questões.

Não é mais novidade para todos nós que os evangélicos, cristãos e adjacentes costumam demonizar tudo aquilo que é oposto ao que a igreja prega, a bíblia diz ou a interpretação que têm sobre o seu deus. E o candomblé é exatamente o oposto em muitos dos nossos cultos praticados e questões que lidamos. E não envolve somente a ideia de não condenarmos aqueles que não seguem à religião para o inferno, ou criminalizar práticas daqueles que vivem a vida da maneira que querem, ou estarmos sempre abertos aos erros e aprendizados constantes e não manipularmos a fé dos outros. Mas a igreja sempre desejou estar no poder, a história conta isso, e nós presenciamos isso constantemente quando vemos casos de alienação religiosa sob os fies para conseguir o tão valorizado dízimo, mas não para retornar em bons feitos, e sim para enriquecer a custa da fé alheia. 

O Candomblé passou a ser demonizado por termos o culto à diversos deuses e acreditar na existência, força e fé de todos eles. Do fato da religião ser um antro de apoio e junção de todos aqueles que são negros e querem estar ligados e cultuar os seus ancestrais. E de termos em mente que um terreiro não é melhor que o outro para poder ter, ou já possuir, uma quantidade maior de filhos de santo do que os outros. E a competitividade entre igrejas é o que movimenta as mais loucuras midiáticas para popularizar-se. E acrescentando ainda o fato de termos resistido por séculos para que a cultura e a religião continuasse viva nos dias de hoje.

Exu não é demônio

Um dos exemplos de termos sido totalmente influenciados pelo que a religião católica pregou no passado - e alguns ainda continuam vagando por aí - é acreditarem com todas as certezas universais (risos) que cultuamos o demônio - que na visão dos cristãos, católicos e evangélicos, é um ser maligno que leva e governa ao inferno. A nossa religião é denominada o inferno, e os deuses que cultuamos é considerado o demônio, só que em diversas formas. Eu já cansei de responder a perguntas leigas como "vocês bebem sangue de bode?", ou até mesmo "você acredita em Deus?", respondi com sarcasmo e deboche à todas elas. 

É por essa mesma questão que alguns líderes religiosos não apoiam o sincretismo religioso, é uma porta de preconceito e escrotidão para tomar posse do que é nosso, enfraquecer aquilo que cultuamos como se nossos conceitos fosse um plágio das entidades santas que a igreja ora fielmente, alguns pelo fim do que pregamos. E respondendo à este estereótipo: 

Não existe demônio na religião de matriz africana

Sério! No Candomblé temos uma entidade chamada Exu, é representada por características masculinas e é a figura mais popular dentro da religião de matriz africana. O mesmo, é guardião dos caminhos e encruzilhadas, nada pode ser feito sem a sua participação pois ele quem decide o que passa e o que fica. É sim, um dos Orixás mais importantes durante os cultos.

Exu é a entidade que representa o irreverente, aquele que não se curva diante de ninguém, que gosta dos prazeres da vida e da pele, da liberdade de não ter alguém acima de ti lhe dando ordens sem agradar-lhe. E ele sempre foi o oposto de tudo aquilo que a igreja pregava, por isso, a  demonização acaba sendo bem direta, mas não por uma má interpretação religiosa, por racismo, preconceito e despeito por acolhermos e respeitar tudo aquilo que eles sempre condenaram ao inferno e a dor eterna. Pois, a mesma, é sustentada pelo medo e subjugação que faz nos fies e desamparados. Exu, não é demônio. 

Laroyê Mojubá!

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