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ATÉ ONDE VAI A MILITÂNCIA?

Faz pouco mais de dois anos que iniciei uma pesquisa própria sobre os meus próprios preconceitos, desconstruir o machismo que reinava em mim e é passado de geração à geração, principalmente em 'comunidades inferiores' e cidades pequenas distantes da capital - que é onde me localizo. É difícil ficar distante da cultura, da diversão e do lazer na proporção tão grande quanto acontece nas cidades grandes. Mas isso é um outro assunto. Mesmo tendo acesso pouco à diversidade e números imensos de pessoas, corri atrás dessas informações pelo caminho que me foi proporcionado: as redes sociais e a pesquisa na internet. Além de ter quebrado a cabeça com estatísticas, matérias escritas por pessoas que viveram na pele o preconceito e criaram redes de comunicação (blogs, sites, fóruns) para expor a vivência de todo um grupo, desta maneira, consegui despir quem estava sendo reprimido no meu próprio eu.

Desconstruir a si mesmo é um processo doloroso. Principalmente quando percebe que todo momento da sua vida compartilhou das mesmas opiniões, comentários e deu risos de piadas que humilha, inferioriza, mata e cala muitas outras pessoas que são tratadas como minorias. Com o passar do tempo, comecei a me envolver mais afundo com grupos sociais, passei a ter consciência de como estou inserido na sociedade, como sou visto e como sou tratado pela mesma - neste caso, passei a estudar a história, conheci toda luta dos meus antepassados. Estudei também o período ditatorial, passei a me aprofundar em política e tive uma noção gigantesca de como funciona o preconceito racial dentro do país. E claro, é de assustar à todos. Não demorou muito para eu desse início à conversação com outras pessoas que fazem parte do meu ciclo. Desconstruí a mim mesmo para amar os traços e a cor que herdei dos meus antepassados, passei à amar e conhecer muito mais a cultura que os ajudou a lutar e resistir. Tentei desconstruir a todos, para poder assumir a minha homossexualidade sem temer as reações negativas - infelizmente, não consegui atingir à todos.

Depois de anos estudando sobre grupos sociais, políticas sociais, e tudo que envolva a minha negritude e sexualidade. Vejo uma distorção gigantesca do que os movimentos sociais vem sofrendo, seja pelos próprios que possuem conhecimento limitado e ignorância enorme sobre si mesmo - um oprimido querendo ser opressor -, ou por mau caratismo, interesses pessoais e preconceituosos para promover-se. O ideal para o cenário que nos encontramos é a união de todos os grupos e movimentos para movimentar uma união de todos esses grupos inferiores perante a sociedade masculina e embranquecida.

O lugar de fala

Apesar de ser algo muito popular atualmente, a sua significância foi perdida ou simplesmente distorcida no decorrer do seu auge. Eu entendo como uma propriedade em determinados assuntos que atingem certos grupos sociais, que viveu na pele o preconceito e lida com isso diariamente. E claro, como tudo deve ser resolvido a base do diálogo, essas pessoas que vivenciaram devem receber uma atenção maior dentro dos movimentos para os apoiadores saberem que há outras formas de agredir essa comunidade e pertencentes da mesma, além de contribuir com projeto de políticas sociais mais eficaz, contribuído com o conhecimento concreto sobre o assunto - essa é a minha visão sobre lugar de fala.

Só que ele não está sendo trabalhado desta maneira pelos apoiadores. Eu sou proibido de defender legados do feminismo por ser homem, na lógica, eu não posso apoiar o feminismo e fazer parte do movimento. Longe de mim estar desmerecendo toda a sua causa, mas se estão lutando por direitos iguais, porque deixar homens de fora? E deixar outras causas de lado? - em outros movimentos também precisam ser tratados, como não envolver brancos quando se trata do movimento negro (nessa lógica, não podemos desconstruir brancos que se disponibilizaram a ouvir). Ou também quando se trata de militar e as pessoas insistem em se apossar de causas para agir somente dentro das redes sociais, sabemos que as redes têm um poder enorme de influência, mas sabemos que quando se trata de desconstrução é preciso conversar diretamente com as pessoas - palestrar, debater, se abrir à opiniões contrárias que foram formadas apenas por ignorância e não ódio. É preciso falar com as pessoas. Não se deve fechar-se numa bolha.

A militância está sendo direcionada as redes sociais, à bolhas de 200 amizades que jamais irão agir fora daquele antro de frustração e ações-meia-boca que não passa de palavras vazias de um discurso superficial baseado em não-vivencias e ao mesmo tempo que nos fechamos à bolhas de puro ego. Precisamos mudar a direção que a militância está percorrendo, ou acabaremos morrendo na praia.

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