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HUGO PASCOTTINI PERNET: MEMÓRIAS DA INFÂNCIA EM QUE EU MORRI

Mas como pode alguém morrer e ainda assim escrever sobre a própria morte?
FOTO/ REPRODUÇÃO JINFORMAL
Sinopse:Memórias da infância em que eu morri é um romance narrado em primeira pessoa pelo menino Hugo, de nove anos. Fã de esportes e da leitura de Fernando Pessoa, Hugo recebe o diagnóstico de uma doença grave, logo após ele, os pais e o irmão mais velho se mudarem para uma casa grande, num novo bairro na Zona Oeste do Rio de Janeiro. O diagnóstico não é bem recebido pelos pais, que passam a frequentar a Igreja com mais afinco e se apegam à religião durante o tratamento do menino. A mãe, principalmente, parece fechar-se em si mesma, isolando-se no quarto do segundo andar, trancada, o que deixa Hugo desnorteado, sem saber a quem recorrer para compreender melhor o que se passa consigo. Numa tentativa de comunicar-se com a mãe, para desabafar sobre seu sofrimento íntimo e tentar entender melhor o que se passa, Hugo começa a gravar fitas de áudio.
Páginas: 106
Editora: Amazon


O autor brasileiro Hugo Pascottini nos apresenta uma história através dos olhos do jovem Hugo (ou seria dos seus próprios olhos, Hugo?). Hugo é um garotinho de 9 anos que acabou de descobrir que possui câncer, ou pelo menos os médicos assim diriam ser.

Hugo, ou Huginho para os mais íntimos, possui uma família extremamente católica, devotos ainda de Nossa Senhora. Durante o desenrolar do livro o garoto conta a sua história a dividindo em 3 partes: fragmentos do diário, fragmentos das fitas cassetes e fragmentos da gravações.

Os adultos são muito estranhos: acreditam no que inventam. Pior inventam qualquer coisa em que precisam acreditar.

Por que uma casa grande e pintada de tristeza vale mais do que um apartamento pequeno e cheio de poeira de felicidade espalhada pelos cantos?

Em fragmentos do diário vemos uma perspectiva de Hugo quando o menino ainda escrevia em seu caderno, que ele adotou o nome de diário do Hugo. Neste caderno Hugo conta sua trajetória de pré-adolescência quando o mesmo ainda não havia descoberto a doença, além disso, o próprio fala de sua rotina em ir para a escola, seu gosto aficionado em Fernando Pessoa, sua família católica, o gosto do pelo futebol e seu time de coração, etc. Além do mais, ainda entramos em devaneios constantes da mente de uma criança e em como ele descobre o caroço presente em seu corpo.

Já em fragmentos das fitas cassetes, Hugo passou a fazer o tratamento, os médicos realmente constataram que o menino possui Câncer. Com o tratamento quimioterápico o menino passou a ficar mais fraco e mais cansado, Hugo, então, passa a não ter mais ânimo para escrever, mesmo que ainda possua um gosto inegável pelos heterônimos de Fernando Pessoa, e assim o menino tem a ideia de pedir ao pai fitas cassetes para gravar seus dias. Nesse momento ele passa a relatar o distanciamento de sua mãe e a falta que a mesma tem feito. A presença que o pai tem tomado e mesmo assim ainda há constantes devaneios.

Talvez vocês pensem como a velha, é mais fácil criar um animal do que uma criança.

Em alguns momentos, sendo a parte dois a mais comprida, não conseguimos detectar se Hugo está tendo devaneios por conta do tratamento e da ausência da mãe, ou se ele está realmente tendo algum vislumbre divino. Como no caso de Clara, a amiga que conquistou Hugo.

Em terceira e última parte do livro, fragmentos das gravações, apesar das constantes fitas que Hugo tem gravado e deixado para que sua mãe ouvisse o mesmo não tem conseguido a devida atenção, deixando-nos aflito com o fato da mãe do menino tê-lo abandonado na sua fase mais crítica de pré-adolescente. Mesmo assim Hugo tem um plano e com ajuda de seu irmão o coloca em prática, e nesse momento entendemos o que se passa com a mãe de Hugo, o porquê de o menino ter ido passar um tempo com o avô e a enfermeira mãe da Clara. Entendemos o afastamento e o que saber da doença do menino causou a mesma. A mulher passou a fazer seções de terapia após entrar em uma depressão profunda, por não aceitar a condição que se filho mais novo se encontrava.

Você me transformou num poema sem rima, sem ritmo, sem harmonia, sem estrofe, sem pontuação, abandonado, sem título que anuncie esse grande vazio arquivado na sua gaveta.

Ainda na última parte não só os pais do menino como até nós mesmos nos questionamos: fora tudo uma questão de fé ou um “acaso” do destino? Melhor dizendo, nos tornamos Hugo e nos enxergamos através de todas as suas questões.

A escrita é leve e fácil de ser entendida, já que somos levados ao mundo de uma criança através de seus olhos. Chegou a me lembrar de autores antigos, havia muito tempo que não lia nada tão bem escrito e com tanto significado. Além disso, temos contato constante com a família e sua religião, e os questionamentos que o próprio Hugo faz sobre toda aquela fé de seus pais. Hugo, temos algo em comum mocinho, eu também fiz catequese pelos mesmos motivos (talvez, tenhamos mais em comum do que a simples catequese).

Recomendo a leitura e apreciem.

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