quarta-feira, agosto 12, 2020

‘EM HISTÓRIAS CURTAS, CONSIGO SOLTAR MAIS MINHA IMAGINAÇÃO E CRIATIVIDADE’ MICHELLE PEREIRA EM ENTREVISTA


Michelle Pereira, nem escritora nem designer, mas uma artista, como a mesma diria em sua biografia disponível em seu site. Técnica e tecnóloga, por formação, em Designer Gráfico e MBA em Projetos Editorias Midiáticos. Além de suas obras, próprias de si mesma, a autora já participou de três antologias: Criaturas do Submundo, Simulacro & Simulação e Arrependa-se

Quando foi que começou a escrever? Como foi que tudo começou? 

Comecei a escrever quando era adolescente, ali pelos meus 14 anos. Inventava histórias fantásticas, anotava em caderninhos e mostrava para minhas amigas, que adoravam. Hoje, fico chateada por ter perdido quase todos os manuscritos. Alguns dariam boas histórias, uma delas, me lembro mais ou menos e já tentei reescrever. Ainda não consegui fazer algo legal, mas um dia vai! 

Em Guardião do Medo nós temos uma fantasia espetacular e que nos faz ficar entre odiar ou amar o personagem principal. Como foi o processo criativo? O que deu origem a esse enredo? 

Guardião é a menina dos meus olhos. Foi meu primeiro livro completo e, pensando bem, ele é uma das histórias que comecei quando adolescente. Fiz um rascunho de 25 páginas que ficou, por muito tempo, esquecido no computador. Entre 2012 e 2013, ele se tornou real na forma do meu TCC do curso técnico em Design Gráfico. Para esse trabalho final, eu queria produzir um livro. Mas, não queria qualquer livro, queria algo real, algo meu. Foi desse pontapé e daquele rascunho que nasceu Guardião do Medo. A história tem como inspiração principal a ópera rock do My Chemical Romance, The Black Parade. Nesse disco, a banda conta um pouco do passado do "Paciente", um homem com câncer terminal que, enquanto morre, começa a rememorar sua vida. O Alexander veio do Paciente. 


Além de The Black Parade, também me inspirei nos primeiros arcos de histórias de Sandman e n'O Livro do Cemitério, do Neil Gaiman, e em diversas músicas que ouvia na época em que estava escrevendo, como Doesn't Remind Me, do Audioslave; Poison Heart, do Ramones; e Just Breathe, do Pearl Jam

Acho que essa miscelânea de fatos me fez criar o Alexander como uma personagem quase real, que, como você disse, ficamos entre odiar e amar. Ele não é o cara perfeito, ele sofreu, transformou isso em raiva. Quem, vivendo o que o Alexander viveu, não ficaria revoltado com a vida? Porém, ele também tem seus momentos de redenção. E me faço mais perguntas: podemos mudar? Podemos nos tornar melhores? 

O Demônio no Campanário foi seu segundo livro, certo? O que te levou, a ideia por trás, a criar esse enredo? Devo explicar que me surpreendi e ao mesmo tempo me decepcionei com o enredo, esperava mais, principalmente porque me encantei com a sinopse. A Michelle de hoje mudaria algum ponto no livro, no enredo ou na elaboração dos personagens? 

Escrevi O Demônio no Campanário assim que terminei Guardião do Medo, como uma forma de relaxar minha mente com a pressão da produção do TCC. Lembro que uma frase deu origem ao livro, algo como "Você acreditaria se eu dissesse que há um demônio vivendo no campanário?". Foi daí que comecei a escrever, sem muitas pretensões, sabe? Acabo me surpreendendo por ele ser a história que os meus leitores mais gostam (sou suspeita, mas prefiro Guardião haha!). 


A Michelle que escreveu esse livro, oito anos atrás, amadureceu muito. Então, assumo que eu mudaria diversos pontos em O demônio no campanário. Melhoraria o enredo, aprofundaria as motivações de cada personagem, faria uma história mais encorpada, acho. Um dos pontos que me incomodam bastante, e que recebi críticas depois da publicação, é ter colocado sob holofotes a rivalidade feminina. A base d'O demônio no Campanário vem da minha experiência de estudante de ensino médio, em escola pública da periferia, na década de 2000. Naquela época, não se discutia feminismo, cansei de ver a rivalidade entre garotas se tornar algo desproporcional e comum. O demônio no campanário acabou absorvendo isso e hoje, feminista como sou, não tornaria Eva e Karina inimigas mortais por causa de um garoto até o final. Ainda que mantivesse esse conflito, o reverteria em algum momento na forma de mostrar que as mulheres precisam se apoiar. Nós somos mais fortes quando nos unimos, quando lutamos contra o sistema. 


Você, ao que posso perceber, parece gostar muito de escrever contos, inclusive gostei muito de dois: Estática Humana e As Crônicas de Vanroe e Bessengard. Você gosta mais de escrever contos do que elaborar enredos para livros? 

Desde o ano passado, por incentivo do meu amigo e também escritor, Igor Feijó, tenho trabalhado muito em contos e micro contos e acabei gostando. Em histórias curtas, consigo soltar mais minha imaginação e criatividade. Elas são recortes menores de cenários, são onde posso escrever sob diversas vozes em um espaço curto de tempo. Gosto disso. Gosto de explorar várias personagens, de contar um pouquinho sobre elas e ficar me perguntando "o que será que aconteceu depois disso?". Acho que os leitores compartilham dessa mesma expectativa que eu e podemos ficar mais tempo juntos, pensando sobre o futuro das minhas criaturas. 

Sobre As Crônicas de Vanroe e Bessengard. Ainda teremos mais desse mundo? Já tem data estipulada para os lançamentos dos próximos contos? 


Sim, teremos muito mais desse mundo! As Crônicas de Vanroe e Bessengard são muito especiais para mim. A princesa Líly, personagem da próxima história que irei publicar nesse universo, é a personificação da minha amiga e escritora, Ana Beatriz Bernardo. Ela passou por maus bocados quando era adolescente e criei a Líly e o conto A gárgula e o Coração para ela. Foi meu presente de quinze anos para a Bia (ela já passou dos vinte, mas na minha cabeça, sempre vai ter quinze, como a Líly). Demorei muito para querer publicar essa história e acho que chegou a hora. 

A gárgula e o Coração já está bem encaminhada, mas preciso definir mais algumas coisas antes da publicação. Espero que o lançamento ocorra em breve, entre setembro e outubro. 

Falemos um pouco mais sobre Michelle. Você publicou seus dois primeiros livros de forma independente, certo? Como foi essa experiência? Conseguiu sentir apoio por parte da família e amigos quando divulgou que estava publicando duas obras? 

Isso mesmo, meus dois primeiros livros foram publicados de forma independente. Guardião do Medo até passou pela publicação em uma editora prestadora de serviços, mas acabei não gostando desse processo e o tornei independente após o término no contrato. Gosto mais de publicar por minha própria conta, pois, dessa maneira, tenho mais liberdade para me envolver em todos os processos. 

Minha família e meus amigos mais próximos sempre me apoiam, o que me faz muito feliz. Minha mãe é a minha melhor vendedora, acreditem ou não. Sem ela, acho que Guardião e O demônio teriam sido verdadeiros fracassos. Sempre vou precisar agradecer muito à dona Marlene por ter feito tanto por mim e pelas minhas histórias. Ela me deu muita força para perseverar. 

Quais são seus autores favoritos? Aqueles que te inspiram a escrever? 

É tão difícil pensar em autores favoritos! Meus dois autores top dos tops são o Neil Gaiman e a Laini Taylor. O Neil é autor de uma variedade incrível de histórias e existe certa loucura e certa estranheza dentro delas que me cativa; a Laini (meu Deus do céu!), eu me apaixono todos os dias pelos universos que ela cria. Um Estranho Sonhador, sem dúvida, é um dos meus livros favoritos da vida. 

Ler o que eles escrevem me inspira a ir mais longe nas minhas histórias e espero escrever mais e melhor por causa disso. Acho que nunca chegarei aos pés, mas saio beijando o chão em que eles pisam até o último dia da minha vida (risos)! 

Adoro outros autores, mas, acho que se for fazer uma lista, vamos ficar aqui por muito tempo. 

E para encerrar nossa mini entrevista. Teremos aí mais algum enredo vindo em breve? Podemos esperar mais o que para o próximo ano, semestre, bimestre? 

Temos várias coisinhas vindo por aí! Meu terceiro livro, Meu Plano B, está demorando um pouco para sair, mas um dia vai (risos)! Creio que entre o fim desse ano e início do próximo consiga lançá-lo. Enquanto ele não fica pronto, A gárgula e o Coração vem chegando para aquecer o coração dos leitores. 

Antes de terminar, gostaria de agradecer imensamente por todo o carinho que você tem comigo e com minhas obras, Karol! Espero escrever mais histórias que conquistem você.

Um comentário:

  1. Ah que maravilhosa! Obrigada por me convidar para essa entrevista, Karol. De diversas maneiras, ela me fez refletir sobre meu trabalho como escritora e sobre o quanto eu amo o que faço.
    Um abraço!

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